Precisamos colocar na cadeia os empresários que ainda não sabem que acabou a escravidão no Brasil , diz Lula

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Transcrição

'Jornalista: Olá presidente. Tudo bem?

Presidente: Tudo bem, Luiz.

Jornalista: Presidente, o Brasil ainda está chocado com o assassinato de um motorista e de três fiscais que atuavam em Unaí, no estado de Minas Gerais. O senhor esteve já com as famílias das vítimas, levando o seu apoio. Agora, a gente que saber o seguinte: o que pode ser feito, presidente, para acabar com essa vergonha do trabalho escravo no Brasil?

Presidente: - Primeiro, Luiz, eu queria dizer a você, dizer ao povo brasileiro que é constrangedor, em pleno século XXI, nós estarmos aqui debatendo uma coisa que já foi terminada em 1888, quando houve a lei que aboliu a escravidão. Lamentavelmente, no Brasil nós ainda temos trabalho escravo. Pra gente acabar com isso, primeiro precisa haver uma fiscalização muito dura do governo e estamos fazendo isso. O que nós queremos é que quem souber onde tem trabalho escravo, comunica ao governo, comunica à Delegacia Regional do Trabalho, comunica à polícia da cidade, porque nós precisamos colocar na cadeia os empresários que ainda não sabem que acabou a escravidão no Brasil. E eu queria aproveitar para dizer às famílias dos nossos quatro fiscais que morreram, que nós vamos, como eu disse na missa, cuidar com carinho da família, sobretudo das crianças, nós vamos garantir bolsa de estudo para as crianças até elas terminarem a universidade, eu vou mandar uma lei para o Congresso Nacional e vamos dar a eles o mesmo tratamento que nós demos aos trabalhadores que morreram na Base de Alcântara, no Maranhão, no ano passado. é o mínimo que a gente pode fazer para garantir o futuro dos filhos de trabalhadores que morreram servindo ao nosso país. E agora, Luiz, nós vamos continuar, eu disse ao ministro Ricardo Berzoini que se os fiscais estão incomodando alguns fazendeiros que não querem respeitar a lei, nós vamos agora colocar mais fiscais, porque nós queremos deixar claro que nós seremos intransigentes na perseguição àqueles que praticam o trabalho escravo no Brasil. Nós colocamos o que existe de melhor na Polícia Federal, porque pode demorar um mês, pode demorar seis meses, mas pode ficar certo que nós vamos pegar esse assassino. Esse ou esses assassinos e se tiver mandantes, vamos pegar os mandantes também. Aliás, é importante lembrar, eu tive com o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, e eu disse a ele que era importante que os fazendeiros de bem deste país, aqueles que cumprem a lei, aqueles que geram empregos, aqueles que geram riquezas e distribuem renda, não podem ficar quietos, é preciso que os bons fazendeiros, os bons empregadores denunciem também o trabalho escravo, porque senão a sociedade fica confundindo, parecendo que está todo mundo envolvido nisso. São poucos que praticam o trabalho escravo e nós achamos que todas as pessoas de bem do Brasil, homens e mulheres que tiverem uma notícia, é importante fazer a denúncia, porque nós precisamos banir de uma vez por todas qualquer trabalho escravo no Brasil.

Jornalista: Presidente, o Brasil está sofrendo agora problemas com as fortes chuvas que atingem praticamente todo o país. O senhor fez uma viagem para conferir de perto esses estragos da chuva na região Nordeste. O que o senhor viu, presidente? O que pode ser feito para resolver a situação das pessoas que estão desabrigadas e para evitar que novas tragédias aconteçam?

Presidente: Olha, eu tenho muita experiência em tratar de enchentes, porque fui vítima de enchentes durante muito tempo na minha vida. Então, eu sei o que é perder fogão, o que é perder geladeira, o que é ver rato passando dentro da água, correndo para se salvar, sei o que é tirar pessoas mais idosas quando estão com água quase pelo pescoço. é uma vida muito dura, eu fico chocado quando vejo a água entrar na casa de uma pessoa. Então, eu acho que é preciso uma ação combinada, de investimentos em saneamento básico, de investimentos em habitações em lugares mais adequados, de canalização dos córregos que podem ser canalizados. Na viagem que eu fiz ao Nordeste, nós garantimos algumas coisas - primeiro, de que não ia faltar alimento para ninguém, de que não ia ficar ninguém isolado, porque nós iremos recuperar as estradas, de que não ia faltar remédio pra ninguém e de que não ia faltar água potável para ninguém. Essas quatro coisas nós estamos cumprindo à risca e, disse aos moradores, tanto em Petrolina quanto em Juazeiro, na Bahia, quanto em Teresina, no Piauí, que nós vamos esperar a chuva passar, vamos sentar com prefeitos e governadores e vamos começar a discutir como construir a casa, porque nós não podemos reformar a casa e nem construir no mesmo lugar que deu a enchente, é preciso tirar as pessoas de lá. Então, é preciso que as prefeituras dêem terreno, é preciso que os governadores, quem sabe, façam urbanização e o governo federal financie a casa para essas pessoas. Eu, inclusive, estou estudando com a Caixa Econômica Federal a possibilidade de liberar o Fundo de Garantia das vítimas das enchentes, para que elas possam reformar as suas casas. Ou seja, nós temos que fazer o que for possível, o que estiver ao nosso alcance, para que a gente possa minimizar o sofrimento das pessoas, porque, olhem, eu já acordei uma hora da manhã com um metro de água dentro da minha casa e depois que passa a chuva, você ficar com 30 centímetros de lama dentro da tua casa e você ter que tirar, é uma coisa muito difícil.