Lula comenta política externa brasileira

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Transcrição

'Luiz Fara Monteiro: Olá amigos de todo o Brasil começa agora o Café com o Presidente, o programa de rádio com o presidente Lula. Hoje nós vamos falar sobre a política externa brasileira. Temos muitos assuntos e teremos por isso uma conversa um pouco mais longa. Tudo bem presidente?

Presidente Lula: Tudo bem, Luiz.

Luiz Fara Monteiro: O Brasil acabou de sediar a Cúpula América do Sul-Países árabes, reunindo 34 nações aqui em Brasília. O senhor tem dedicado uma atenção especial à sua política externa e, nos próximos dias, viaja para a Coréia do Sul e o Japão. Existe alguma crítica em relação ao número de viagens que o senhor tem feito, tem gente que fala que o senhor viaja demais. Qual o motivo dessas viagens? O que elas trazem de benefício para o Brasil?

Presidente Lula: Eu estou convencido que o povo brasileiro já tem uma nítida noção do resultado da nossa política internacional, da nossa política externa. Eu acho até normal que, muitas vezes, algumas pessoas fiquem pensando: "Nossa, mas o nosso presidente está viajando demais". Acontece que, nesse mundo globalizado, um país com o potencial produtivo do Brasil, tanto na indústria quanto na agricultura, um país que tenha qualidade no setor de serviços que tem o Brasil, não pode ficar esperando que as pessoas venham nos descobrir. Isso Cabral já fez em 1500. O que nós precisamos agora é descobrir países que tenham potencial de, na sua relação comercial com o Brasil, comprar mais e vender mais para o Brasil.
Os exemplos são muito fortes, nós tínhamos vindo de sete anos consecutivos de déficit na nossa balança comercial, ou seja, nós comprávamos mais do que vendíamos. Somente a partir de 2002 é que nós começamos a crescer um pouco nossas vendas mais do que as nossas compras. Ora, de 2003, depois da nossa posse, até hoje, nós praticamente duplicamos. Nós hoje temos uma exportação, em 12 meses, praticamente de US$ 104 bilhões. Nós temos um superávit, ou seja, vendemos mais do que compramos, praticamente de US$ 37 bilhões, o que é o saldo maior da história do Brasil falando percentualmente. O nosso comércio com os países africanos aumentou 48%, o nosso comércio com o Oriente Médio aumentou acima de 50% e o nosso comércio com a América do Sul cresceu 58%. Então, para mim, a resposta melhor que eu tenho às críticas é o resultado da nossa balança comercial, é o resultado das nossas exportações, é o resultado das nossas reservas.
Isso para mim é a resposta aos críticos porque no Brasil, Luiz, essa é a verdade, e eu quero chamar a atenção do povo brasileiro. No Brasil tem um tipo de gente com a cabeça colonizada, tem um tipo de gente que parece que não gosta de independência, tem um tipo de gente que parece que acha que o Brasil só pode estar subordinado à política dos Estados Unidos ou à política da União Européia. Ora, nós queremos ter a mais extraordinária parceria com os Estados Unidos e com esse grupo fortíssimo que é a União Européia, mas nós precisamos ter uma forte relação com a China, com a índia, com a Rússia, com a áfrica do Sul, com o México. E nós estamos mostrando que nós podemos comprar coisas de vocês, vocês podem comprar coisas nossas, vocês crescem, nós crescemos e vamos desenvolver o nosso continente porque nós não nascemos pra ser pobre a vida inteira. Eu acho que o povo brasileiro já tem consciência de que ficar sentado numa cadeira esperando que alguém nos descubra já era. Ou nós somos ousados, corajosos, colocamos os nossos produtos embaixo do braço e saímos pelo mundo vendendo ou nós perderemos essa guerra num mundo globalizado.

Luiz Fara Monteiro: Presidente, e essa cúpula da semana passada que reuniu 34 nações, vieram chefes de Estado, mais de 70 ministros, mais de mil empresários. Qual foi o resultado desse encontro, dessa Cúpula América do Sul-Países árabes?

Presidente Lula: Luiz, eu estou muito feliz com essa Cúpula, eu acho que ela foi extraordinária, conseguimos fazer uma reunião histórica no Brasil. O resultado disso vem em um curto espaço de tempo, não vai demorar muito. Agora, depois dessa Cúpula, o que acontece? Os nossos empresários precisam pegar a estrada. Nossos ministros precisam viajar. Os nossos comerciantes têm que viajar porque, meu caro, quem não fizer isso não vende. Vamos lá! Vamos chegar com os nossos produtos embaixo do braço, com o nosso sapato, com a nossa roupa, com os nossos carros, com a nossa soja, com o nosso milho, com o nosso suco de laranja, com as nossas empresas de construção civil e vamos vender, vamos mostrar que nós somos competitivos. é por isso que nós não vamos parar, nós vamos continuar viajando, vamos continuar levando as coisas do Brasil.
Eu vou contar um episódio engraçado: agora, na Cúpula Países árabes-América do Sul, no jantar, o presidente da Argélia, eu comecei a conversar com ele sobre a questão do combustível, do petróleo, eu comecei a falar do diesel, do álcool, comecei a falar do carro triplex que nós temos no Brasil e o ministro dele não acreditava que num mesmo motor a gente pudesse colocar álcool, pudesse colocar gasolina e ainda tinha carro com botijão de gás. Chamei o Furlan imediatamente e falei, "Furlan, providencia um carro amanhã na porta do hotel que nós temos que mostrar pra ele". No outro dia, 9h da manhã, estavam lá três carros a álcool, a gasolina e um triplex a gás também pra gente mostrar. "Está aqui, entra aí dentro, liga o motor, desliga o motor". Eles ficaram encantados, ou seja, é assim que a gente vai conseguir mostrar as coisas boas do Brasil, meu caro. E essa competição é pesada porque nessa competição ninguém dá colher de chá a ninguém.

Luiz Fara Monteiro: Presidente, vamos falar agora sobre a integração da América do Sul. O senhor jantou com o presidente da Venezuela, Hugo Chaves, e com o presidente da Argentina, Néstor Kirchner. Existem algumas queixas dos empresários argentinos em relação ao comércio com o Brasil, eles acham que estão levando desvantagem. Como é que o Brasil se posiciona em relação a essas queixas dos argentinos?

Presidente Lula: Veja, a Argentina, ela tem consciência da importância do Brasil, o Brasil tem consciência da importância da Argentina, nós temos consciência do potencial de desenvolvimento da Venezuela. O Brasil tem uma forte parceria com a Venezuela, temos um superávit comercial com a Venezuela muito grande, nós precisamos comprar algumas coisas da Venezuela para poder ter um certo equilíbrio. Nós queremos contribuir para que haja uma política industrial na Argentina porque os argentinos, muitos vezes reclamam, porque perderam praticamente parte da indústria. E o Brasil tem responsabilidade em ajudar com que a Argentina se desenvolva, com que o Paraguai se desenvolva, com que o Uruguai se desenvolva. Esse é o papel do país maior, esse é o papel do país que tem maior riqueza, maior tecnologia. Então nós acertamos que vamos continuar trabalhando juntos, nós não podemos permitir que o interesse de um grupo econômico ou de outro crie qualquer atrito na política de Estado que nós temos que criar entre Brasil e os países do Mercosul e entre o Brasil e os países da América do Sul.

Luiz Fara Monteiro: Presidente, no encontro com os países árabes, um tema político que teve bastante destaque na cobertura foi a relação entre o Estado de Israel e a Autoridade Palestina. O senhor mesmo deu algumas declarações deixando clara sua posição favorável tanto a Israel como a Palestina. O senhor poderia explicar melhor aos nossos ouvintes?

Presidente Lula: Havia, durante a semana que antecedeu esse encontro, uma certa preocupação de que o encontro seria um encontro contra Israel, um encontro contra os Estados Unidos. Nós recebemos aqui a secretária de Estado Americano, nós conversamos com ela, ministros meus conversaram com a embaixadora de Israel. Ou seja, nós não íamos fazer um encontro dessa magnitude para ser contra alguém. Nós fizemos o encontro justamente para sermos favoráveis às coisas positivas. Nós tivemos um documento muito equilibrado, mas muito equilibrado, e eu fiz questão de dizer no meu discurso que, da mesma forma, que eu sou defensor de um Estado palestino, eu sou defensor do Estado de Israel. A existência de um não nega o outro e tive a melhor impressão do presidente da autoridade palestina, que reconhece o esforço que está acontecendo em Israel, que reconhece as dificuldades de Israel, mas que ele está convencido de que vão chegar a uma situação de paz rapidamente. Ora, quando as pessoas querem e as pessoas acreditam, ela vai acontecer. Então, eu estou certo que a posição do Brasil neste aspecto é consolidada. é consolidada a posição do governo brasileiro, do Estado brasileiro e é consolidada a minha posição pessoal. Eu nasci na política defendendo o Estado palestino e nasci na política também compreendendo que o Estado de Israel não é antagônico à criação do Estado palestino. E disse claramente ao presidente da autoridade palestina que eu estava feliz porque hoje eu sou um homem convencido de que somente a paz é capaz de garantir o desenvolvimento daquela região e, sobretudo, o desenvolvimento de um Estado palestino.

Luiz Fara Monteiro: Presidente, agora a próxima parada é Japão, com escala na Coréia do Sul. O senhor está viajando na semana que vem. Pé na estrada mais uma vez, né?

Presidente Lula: E vamos lá com os nossos produtos embaixo do braço. Eu tenho dito sempre, "ao invés de ficar aqui reclamando das coisas, sabe, vamos botar o pé na estrada e vamos mostrar o que a gente produz para o mundo inteiro" e isso tem dado resultados extraordinários e fizemos isso aumentando o nosso comércio com os Estados Unidos, fizemos isso aumentando o nosso comércio com a União Européia porque nós não queremos diminuir a nossa relação com os Estados Unidos e a nossa relação com a União Européia. Nós apenas não queremos ficar dependendo de dois blocos, nós queremos ter uma relação homogenia com o mundo inteiro para colocar os nossos produtos e isso vai gerar riqueza para o Brasil, isso vai gerar emprego para o Brasil, isso vai gerar desenvolvimento para o nosso país.

Luiz Fara Monteiro: Obrigado presidente e até o nosso próximo programa.

Lula: Obrigada você, Luiz, Quero agradecer aos nossos ouvintes e dizer que, daqui a 15 dias, estaremos juntos outra vez.

Luiz: Você acompanhou o Café com o Presidente, o programa de rádio do presidente Lula. Nós voltamos em 15 dias com mais uma edição.