Café com o Presidente especial: Lula entrevista jogadores da seleção brasileira de futebol

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Transcrição

'Presidente: Hoje nosso café é diferente. Nós estamos em Santo Domingo, capital da República Dominicana, na véspera do jogo da solidariedade, do jogo da paz, da seleção brasileira com a seleção do Haiti. E eu hoje vou ser o entrevistador de uma das mais conhecidas figuras do mundo que é o Ronaldinho. Ronaldinho, você está participando no Brasil de uma campanha para recuperar a auto-estima da nossa juventude e do nosso povo. O que você acha que poderia ser feito mais para que a gente pudesse motivar ainda mais a juventude brasileira?

Ronaldinho: Eu acho que está no caminho certo. Eu acho que mostrar exemplos vitoriosos como o meu né... eu comecei (o tratamento da) minha lesão, realmente eu não sabia quando e, se, eu voltaria realmente, mas não desisti, persisti e sem saber o meu futuro eu trabalhava cada dia e no final eu venci aquela batalha. Então mostrar ao Brasil inteiro exemplos positivos como esse, como do Cafu também que foi mandado embora de dezessete times diferentes e no final, no São Paulo foi mandado embora sete vezes, e no final assinou um contrato com o próprio São Paulo. Então, mostrar ao Brasil exemplos vitoriosos é o melhor caminho.

Presidente: Ronaldinho, uma coisa que a gente ouvia na época era que as pessoas falavam "ah, ele não volta mais para o futebol, acabou". Outras pessoas falavam "ele já ganhou muito dinheiro, ele agora pode viver a vida dele tranqüilo, arrumar muitas namoradas, que ele quiser, porque ele está com a vida ganha". Entretanto, contrariando os pessimistas que diziam que você estava acabado para o futebol, prevaleceu a seriedade, prevaleceu o teu compromisso com aquilo que você mais gosta de fazer, que é ser um extraordinário jogador de futebol. Toda vez que você levantava de manhã para fazer fisioterapia, horas e horas intermináveis, você em algum momento pensou em desistir realmente?

Ronaldinho: Não, em nenhum momento. Eu sempre... foi muito mais forte o meu amor pelo futebol. Então, eu não pensava em nenhum momento em desistir, eu só queria lutar contra aquela lesão e eu pensava que eu vou ganhar, eu vou vencer essa batalha, porque eu quero voltar a jogar bola, voltar a fazer gol e eu tenho essa dívida comigo e no final eu consegui a vitória e em seguida teve a Copa do Mundo, a gente ganhou o pentacampeonato, foi meio que um presente por toda a dedicação que eu tive durante a minha lesão.

Presidente: A Copa do Mundo de 2002, o fato de você ser o artilheiro, teve um pouco assim de uma revanche interna tua pelo que aconteceu em 98, ou seja, você ter que provar que estava mais vivo do que nunca?

Ronaldinho: Foi minha revanche comigo mesmo porque infelizmente em 98 teve um final triste porque perdemos, mas 2002 foi a minha revanche pessoal e que por fim ganhamos a Copa do Mundo. Levantei a taça, fui artilheiro, enfim, foram vários motivos para comemorar.

Presidente: Com um corte de cabelo que só serviu para aquela Copa... Agora, Ronaldinho você poderia terminar essa entrevista dizendo algumas palavras de incentivo à juventude brasileira?

Ronaldinho: Ah, sem dúvida. Eu acho que a juventude tem que ter várias coisas na cabeça. Principalmente estudar, sempre, praticar esportes e bom, enfim, se dedicar a essas duas coisas que eu acho que é o melhor caminho para juventude de hoje.

Presidente: Ronaldinho, sua família foi importante para a sua formação como homem, como cidadão.

Ronaldinho: Foi e continua sendo. Minha família é minha referência. é onde eu olho para eles e vejo o que eu realmente eu sou, o que eu aprendi, tudo, foi dos meus pais.

Presidente: Bem, eu penso que vocês tiveram um Café hoje privilegiado com um menino de personalidade, um menino que tem compromissos com a ONU, o embaixador da UNICEF, e eu espero que a juventude brasileira, não para ser jogador de futebol, mas eu espero que a juventude brasileira se espelhe, sabe, no homem, no bom caráter desse moço extraordinário chamado Ronaldo. Muito obrigado, Ronaldo. Atenção, agora vou entrevistar o homem de Araras. Bem, meus ouvintes do programa "Café com o Presidente" estou aqui com o Roberto Carlos. O Roberto Carlos é aquele jogador de futebol que todo mundo gostaria de ser. Respeitado dentro do campo, é um cara que chuta muito forte. é tido como um exemplo de jogador porque briga os noventa minutos, ou seja, é o tipo do jogador que a camisa fica suada de verdade. Acredita sempre que é possível acontecer o melhor. Eu queria fazer uma pergunta para você, Roberto Carlos. Em algum momento do começo da sua vida, ou seja, como jogador de futebol, você pensou em desistir, você teve dificuldades para se tornar profissional?

Roberto Carlos: Não, presidente. Sempre, tanto que meu primeiro presente foi uma bolinha de capotão. No interior de São Paulo a gente fala "capotão". Mas eu tive muitas dificuldades, eu estudei até a quinta série e o dia que eu saí de casa eu falei para o meu pai: "Eu só volto para cá, para ver o senhor de novo, o dia que eu puder dar a primeira casa para o senhor." E assim foi o meu pensamento de futuro que era de ter dificuldade no começo, mas que num futuro próximo eu conseguiria recuperar tudo o que eu perdi, de escola, da minha época de criança, porque quando você começa a jogar futebol existe mais responsabilidade. Então, eu sofri muito no começo e hoje dou muito valor ao que eu faço porque é muito bom jogar futebol. Em nenhum momento eu desisti.

Presidente: Se você tivesse que dar uma mensagem para a juventude brasileira, para os meninos que como você nasceram no interior, estão procurando uma chance, qualquer que seja ela. O que você diria?

Roberto Carlos: Que pratique esporte e, por mais que tenha dificuldade de estudos, acho que não só o futebol, mas o tênis, o vôlei e a natação, esses tipos de esportes fazem que as crianças saiam da rua, tenham mais tempo dentro de classes e, com certeza, cresçam um grande homem ou uma grande mulher.

Presidente: Quem imaginava que um menininho de Garça*, com as perninhas finas, fosse jogar no União São João e depois hoje fosse uma das figuras mais respeitadas no futebol mundial porque na Espanha eu estou sabendo que você é um "pequeno Deus" para o torcedor do Real Madri. Então, eu quero te desejar Roberto Carlos toda a sorte do mundo, que você continue sendo esse menino brilhante que você é e eu espero que nunca mais ouse judiar do meu Corinthians, por favor.

Roberto Carlos: Obrigado viu, presidente.

Presidente: Bem, agora vamos falar com o Juninho. O Juninho tem o privilégio de ser pernambucano, nascido em Recife e depois é o seguinte: jogava no Vasco da Gama que é o meu time. Você sabe que o pessoal briga muito comigo, o pessoal do PT do Rio, porque o pessoal quer que eu seja Flamengo - desculpe, Júlio César. O pessoal quer que eu torça para a Mangueira. Eu sou vascaíno e sou torcedor da Beija-flor. Mas eu estou aqui com o Juninho. Juninho, dá um recado para a juventude. Você que é pernambucano, conhece parte da pobreza de Recife. Você morou muito tempo no Rio de Janeiro, conhece o que é a situação de vários bairros no Rio de Janeiro. Se você tivesse que dar um alento para a juventude brasileira, o que você diria para juventude brasileira, Juninho?

Juninho: Eu diria que, além de sempre acreditar que existe o caminho certo, é muita calma na hora da sua escolha, né? Eu acho que o jovem às vezes não tem calma na hora da sua escolha e acaba fazendo uma escolha diferente pelo caminho errado. Então, muita calma, muita tranqüilidade, acreditar sempre que tem sempre o caminho certo e que a justiça vai sempre existir.

Presidente Lula: Agora, vamos ouvir o Júlio César. Vocês estão lembrados que ele é um pegador de pênaltis, né? Diziam que era o Tafarel, depois diziam que era o Dida, mas ele... Que sorte aquele jogo com a Argentina**, eu vou lhe contar. Estávamos em casa eu, Marisa e os quatro filhos vendo o jogo. Quando a Argentina marcou o gol, eu confesso a vocês que eu levantei...

Locutor: Neste ponto o lado torcedor falou mais forte e o microfone ficou desligado por alguns
instantes, enquanto o Presidente e os jogadores comentavam a final da Copa América. A essa altura uma roda de jogadores estava formada em torno do Presidente Lula e o tema estava lançado: a superação das dificuldades pessoais e o exemplo dos atletas que agora chegavam ao ponto alto da carreira que é a seleção. O zagueiro Cris lembrou as origens humildes da maioria deles e o que é preciso para se superar.

Cris: Acreditar. Acho que é o mais importante porque nós jogadores, a maioria vem de uma situação bem pobre também. Então nós acreditamos e hoje estamos aqui.

Locutor: O goleiro Júlio César também resume a sua receita do sucesso.

Júlio César: Uma simples palavra: sonho. Nunca tinha deixado de sonhar. Nunca tinha deixado de conquistar tudo aquilo que eu almejava, né? Graças a Deus, hoje eu estou na seleção que sempre sonhei. Sempre corri atrás dos meus sonhos. Nós, quando somos muito jovens, a gente está sempre sonhando em dias melhores, em acabar com a violência e ter paz. Então, é sempre acreditar, como o Juninho e o Cris falaram, e sempre correr atrás dos nossos sonhos. O importante é sonhar e fazer por onde, ter atitudes para correr atrás dos nossos sonhos, só isso.

Roger: Eu acho que só sonhar também não adianta. Você precisa trabalhar. Você precisa buscar o seu sonho. Obstáculos têm e grandes para você ultrapassar, mas com personalidade e perseverança, você acreditar naquilo que você almeja, eu acho que as coisas boas tendem a acontecer.

Presidente conversa com Renato: Deixe-me falar uma coisa para você. Quando você começou a querer ser jogador de futebol, em algum momento da sua vida, você teve dificuldade e pensou em desistir?

Renato: Tive. Eu fui para Campinas com catorze anos. Lá, eu iniciei no Guarani nas categorias de base e, às vezes, eu acho que a dificuldade de ficar longe da família, do pai e da mãe, acabou pesando. Eu fiquei praticamente um mês e voltei para casa. Não estava agüentando e meu pai falou que se não era aquilo que eu queria. Ele falou: "você não quer ser um jogador. Você não quer estar seguindo aí como jogador". Então, eu coloquei na cabeça e falei: eu quero. Então eu fui, fiquei seis anos e meio em Campinas, me profissionalizei, consegui ter minha transferência para o Santos e no Santos eu acho que eu tive muitas alegrias, consegui estar servindo a seleção. Então, isso é importante. Acho que cada jovem no Brasil tem que acreditar, tem que ter fé, tem que ter um Deus no coração para que possa estar seguindo. Então, eu acho que cada jovem tem que acreditar no seu sonho e correr atrás que com certeza papai do céu está vendo e vai dar recompensa.

Presidente: Eu acho que tem três coisas importantes aqui na fala do Renato. Primeiro, a vontade, não desistir nunca. Segundo, ter fé, acreditar que tem sempre um ser superior olhando por nós e dando força se a gente tiver força. E a terceira coisa que o Renato falou e é muito importante é a família. Na verdade, eu considero a família uma coisa sagrada da vida da gente, ou seja, você ter uma referência na família é uma coisa importante porque quando a coisa aperta só resta para a gente mesmo o ombro da família para a gente chorar, rir. Eu quero te agradecer, querido Renato.

Presidente: Edu, você na sua carreira, teve momentos que você falou: "ah, está difícil, vou parar?"

Edu: Não, eu passei por momentos difíceis sem dúvida nenhuma na minha carreira. Graças a Deus, tive um ótimo aumento no Corinthians. Fui muito feliz na equipe do Corinthians. Depois, fui vendido para a equipe do Arsenal, na Inglaterra, onde passei mais dificuldades. No momento que eu cheguei. Cheguei no meio de uma temporada, passei muito frio lá. Brasil era muito calor. Lá era muito frio. Me machuquei muito. O pessoal da imprensa falava que eu não era o jogador ideal, mas eu persisti, eu falei: é aqui que eu vou ficar, é aqui que eu vou vencer. E, graças a Deus, estou há quatro anos, consegui quatro títulos lá. Sou muito reconhecido, graças a Deus, pela persistência, por querer realmente vencer num lugar onde realmente é difícil. A Europa não é um lugar fácil para você vencer, ainda na Inglaterra.

Presidente: Maravilha, Lulinha, acho que cumpri com a sua tarefa. O Lula é jornalista da Radiobrás. Foi ele que inventou esse negócio de eu entrevistar os jogadores. Obrigado, querido.
* cidade do interior de São Paulo
** Decisão da Copa América contra a Argentina, o goleiro Julio César pegou um pênalti decisivo para a vitória brasileira.